Análises

Cenário Econômico - Novembro 2014

Cristiane Alkmin J. Schmidt

Economista da Itaú Asset Management

Resumo da análise:

Eleições dominaram a pauta

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Cenário Econômico - Novembro 2014

Cristiane Alkmin J. Schmidt

Economista da Itaú Asset Management



Brasil

A vitória da Presidente Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores (PT), contra o candidato de oposição Aécio Neves, do Partido Social Democrata Brasileiro (PSDB), dominou a pauta das discussões ao final do mês de outubro. Apesar do fim do período eleitoral, espera-se que o cenário siga desafiador, pois a economia deve manter a dinâmica recente.

Alguns indicadores mostram as dificuldades que estão por vir. A começar pela recuperação da confiança dos agentes (consumidores e empresários), a qual segue com tendência decrescente desde 2012. Atualmente a taxa de investimento está em 16% do PIB, um patamar baixo. Ao mesmo tempo, observa-se menor propensão ao consumo, em especial de ativos mais caros, como imóveis e automóveis. Além disso, a utilização da capacidade instalada, divulgada em outubro de 2014 pela FGV (Fundação Getulio Vargas), atingiu 82%, menor nível histórico desde agosto de 2009, quando o índice alcançou 81,2%. Recuperar a confiança na economia exigirá ações concretas por parte do governo, as quais influenciarão o comportamento dos mercados ao longo dos próximos meses.

A baixa geração de caixa do setor público, número seguido mês-a-mês pelas agências de classificação de risco, também traz influências negativas para a confiança na economia. O resultado fiscal em 2014 deverá alcançar algo entre 0% e 0,5% do PIB, número inferior à meta de 1,9% do PIB. A manutenção do atual resultado fiscal compromete a estabilização da dívida pública como proporção do PIB. Torna-se mandatório realizar ajuste fiscal com o intuito de retornar a um patamar que garanta, ao menos, a estabilidade desta relação. Tal ajuste, embora seja factível, será complexo, dado o alto custo do “contrato social” decorrente da Constituição de 1988.

Após dois trimestres de crescimento negativo, a manutenção de taxas de desemprego em níveis baixos, como os atuais, passa a ser improvável no longo prazo (4,8% em setembro – IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, PME, dados dessazonalizados). De fato, como a taxa de participação está em queda (relação entre a população economicamente ativa e aquela em idade ativa), a taxa divulgada pelo IBGE fica subestimada. Não por menos, o saldo da variação da população ocupada, que já alcançou 250 mil por mês em 2010, está em apenas 1.532 (MT, CAGED, dados dessazonalizados), em setembro de 2014. Isto explica a estagnação no salário real admissional, desde o começo deste ano (apresentando queda na margem).

A economia brasileira deve crescer muito pouco em 2014 (ao redor de 0%) e, mesmo assim, apresentar inflação elevada (na casa dos 6,5%). Além disso, observa-se discrepância, desde 2011, entre os preços relativos dos bens não-comercializáveis e bens comercializáveis, o que explica em parte a desindustrialização brasileira. Enfim, os custos das empresas aumentam, mas essas têm dificuldade em repassá-los para o preço final do produto.

Os desafios internos, portanto, parecem ser maiores do que antes. O resultado será um esforço maior do que os observados nos últimos quatro anos para implementar reformas e realizar projetos, em especial os que tiverem impactos fiscais relevantes.

Internacional

No âmbito externo, apesar de haver uma perspectiva satisfatória, mais obstáculos se verificam. A começar pelo dólar, que tem apresentado tendência de valorização. Os motivos são as perspectivas de normalização da política monetária americana em 2015, as políticas expansionistas de economias importantes (China, Japão e Zona do Euro) e a queda nos preços das commodities. Somados, estes vetores vão na direção de um real mais desvalorizado, independentemente do que ocorra na economia brasileira. Como ainda passamos por dificuldades internas, esta pressão acaba aumentando e corroborando o vetor externo.

Na economia americana, em particular, os dados seguem positivos de forma geral. As tendências das variáveis de atividade continuam indicando um crescimento de 2,2% em 2014 e de 3,1% em 2015 (FMI – Fundo Monetário Internacional). A confiança do consumidor também tem melhorado e em outubro teve alta de 6% (de 89 para 94,5). Adicionalmente, o mercado de trabalho, segundo o “Livro Bege” (documento que auxilia os membros do FOMC nas reuniões), “segue evoluindo de forma modesta e moderada”, mas consistente. Mais ainda: o hiato no emprego tem diminuído de forma robusta, segundo o que sugere o comunicado do Comitê de Política Monetária do Fed (FOMC), isto é, que o aumento da taxa de juros em 2015 deva ocorrer, do meio para o final do ano (talvez entre junho e setembro), principalmente pelo ambiente deflacionário que se apresentou, em especial advindo da queda do preço do petróleo.

Além dos EUA, a projeção do FMI para o Canadá também está evoluindo satisfatoriamente, com crescimento projetado em 2,3% para 2014 e 2,4% para 2015. Tal evolução, somada à perspectiva positiva da economia americana, pode fomentar um potencial competidor para o Brasil: o México. Além de fazer parte do NAFTA (North America Free Trade Agreement) e se beneficiar do livre comércio com esses dois países, o México tem feito reformas estruturais relevantes, o que chama a atenção de muitos investidores estrangeiros.

A Zona do Euro, por outro lado, segue com os mesmos problemas de sempre: desemprego alto (11,5% em agosto), crescimento baixo (menor do que 1%) e risco de deflação (0,3% comparado a setembro 2013), segundo dados do Eurostat. Reverter estes números segue sendo os maiores desafios de Mario Draghi, presidente do BCE (Banco Central Europeu) e dos governos dos países-membro. O crescimento para 2014 está projetado em 0,8% para 2014 e em 1,3% para 2015. Para assegurar estes números, já foram comunicados pelo menos três programas de afrouxamento quantitativo: o financiamento de longo prazo para bancos (TLTRO), a compra de títulos lastreados em diversos tipos de ativos (ABS) e a compra de títulos lastreados em fluxo imobiliário (covered bonds). O primeiro foi lançado em setembro e deve haver outra rodada em dezembro. O segundo, por questões regulatórias, deve ter início em 2015. O terceiro, por fim, teve início há pouco tempo e ainda não se pode avaliar ao certo seu sucesso. De qualquer forma, a mensagem do presidente do BCE é que ele fará “o que for preciso” para dirimir os problemas da economia.

A China, segue com uma tendência de desaceleração moderada na atividade, com crescimento do PIB de 7,4% em 2014 e de 7,1% em 2015, de acordo com o FMI. O índice de gerentes de compras (PMI – índice de atividade industrial) de outubro (50,4) continua indicando uma economia em expansão e de forma crescente há pelo menos três meses. Por outro lado, a produção industrial, que crescia a 9% a.a. desde 2012, apresentou uma queda súbita para 7% em setembro, mas em outubro já está em 8%. A venda de automóveis segue em patamar de 190 mil unidades ao mês, de outubro de 2013 até setembro de 2014 e os investimentos continuam crescendo a uma taxa de 10% a.a. O setor que permanece preocupando é o imobiliário: os preços dos imóveis estão caindo há pelo menos quatro meses. Em agosto, a variação de preços estava em -1,5%. Por fim, a autoridade monetária chinesa (PBC) parece continuar disposta a estimular a economia, para garantir que uma taxa de crescimento siga próxima a 7,5% (sua meta para este ano), principalmente enquanto a inflação seguir baixa (em setembro foi de 1%, Eurostat).

Enfim, apesar da economia externa apresentar um nível de atividade crescente entre 2014 e 2015, o dólar segue tendo uma tendência de valorização global; os preços das commodities estão mais baixos, o que afeta diretamente a balança comercial brasileira; e o preço do petróleo parece ter alcançado níveis de preços mais baixos de maneira estrutural, o que pode colocar os investimentos do pré-sal em risco. Os desafios para os novos formuladores de política no Brasil, portanto, considerando também os obstáculos internos, são numerosos e profundos.

Disclaimer

O Cenário Econômico Mensal é uma publicação da Itaú Asset Management. A Itaú Asset Management é o segmento do Itaú Unibanco especializado em gestão de recursos de clientes. As informações contidas nesta publicação foram produzidas dentro das condições atuais de mercado e da conjuntura e refletem uma interpretação do Itaú Unibanco, podendo ser alteradas a qualquer momento sem aviso prévio. Esta publicação possui caráter meramente informativo e não reflete oferta ou recomendação de investimento de nenhum produto específico. Para análise de produtos específicos oferecidos pelo Itaú Unibanco, consulte seu gerente para maior detalhamento e informações completas acerca de suas peculiaridades e riscos. O Itaú Unibanco não se responsabiliza por decisões de investimento tomadas com base nos dados aqui divulgados.