Análises

Cenário Econômico - Abril 2014

Caroline Camargo

Economista da Itaú Asset Management

Resumo da análise:

O aumento da chance de racionamento de energia elétrica adicionou incerteza ao cenário doméstico em março.

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Cenário Econômico - Abril 2014

Caroline Camargo

Economista da Itaú Asset Management



O aumento da chance de racionamento de energia elétrica adicionou incerteza ao cenário doméstico em março. A seca continua elevando as chances de haver um racionamento de energia ainda em 2014, segundo os especialistas do setor. Porém, as chances de ocorrência do evento ficarão mais claras até o final de abril, quando se encerra o período chuvoso. Se as chuvas ficarem inferiores à média histórica até lá, adentrando o período seco com nível dos reservatórios historicamente baixos, a probabilidade de se adotar o racionamento de energia sobe consideravelmente. Ou seja, o cenário segue incerto até lá.

Neste sentido, a dúvida sobre o impacto de um eventual racionamento no PIB de 2014 ainda é elevada. Em 2001, quando o país adotou racionamento de 20% de energia a partir de junho, o PIB recuou 3 pontos percentuais comparado a 2000 (foi de 4,3% para 1,3% em 2001). Porém, na época, a desaceleração da economia também foi contaminada pela crise da Argentina no final de 2001. Nossos cálculos sugerem que o impacto do racionamento de 2001 sobre a economia foi de quase 2 pontos percentuais. Cabe lembrar, no entanto, que isolar estes dois efeitos é difícil. Mantemos cenário de alta do PIB de 1,5% para 2014 e 2% para 2015, sem ocorrência de racionamento.

Se do ponto de visto do PIB ainda há esperança, o mesmo não ocorre com a inflação. A estiagem terá impacto relevante sobre os preços dos alimentos. A seca prejudicou a produção de alimentos, em especial dos chamados in natura, que possuem ciclo de produção curto e impacto rápido nos índices de preços ao consumidor. A escassez de chuvas, que tem implicado em maior utilização de energia térmica a um custo de energia muito superior, deverá impactar também os preços da energia elétrica ao consumidor final em horizonte de mais médio prazo. Por conta disso, elevamos nossas projeções do IPCA para 2014 de 6,2% para 6,4% e para 2015 de 5,5% para 6,0%.

Apesar do cenário de piora da inflação, os efeitos da política monetária mais restritiva que ainda estão por serem sentidos na economia deverão ser considerados pelo Banco Central nos próximos encontros do comitê. Esperamos que o BC suba a taxa Selic ao patamar de 11,50% ao ano em dezembro de 2014 e de 12,50% ao ano em dezembro de 2015. No entanto, diante da alta da inflação, que deve fazer com que o IPCA encerre 2014 encostado no teto da meta de 6,5%, é limitada possibilidade de acomodação de futuros choque negativos de preços. Assim, a probabilidade do cenário alternativo de prolongamento do ciclo de aperto monetário se eleva.

No setor externo, a taxa de câmbio mais depreciada reforça nossa expectativa de reversão de deterioração do déficit das transações correntes até o final de 2014 (GRÁFICO 2). Em fevereiro, o saldo em conta corrente foi deficitário em US$ 7,4 bilhões (de US$ 11,6 bilhões em janeiro) e em 12 meses ficou em US$ 82,5 bilhões. Para 2014, prevemos déficit de US$ 78,1 bilhões (-3,6% PIB). Em fevereiro, a entrada de recursos via investimento direto estrangeiro foi de US$ 4,1 bilhões, e acumula fluxo de +US$ 65,8 bilhões (2,9% PIB) em 12 meses. Chamou atenção em fevereiro o fluxo positivo em renda fixa, com entrada liquida de US$ 3,2 bilhões.

Em relação às contas públicas de fevereiro, além da desaceleração das despesas do governo central, o resultado teve ajuda dos governos regionais. Com isso, o superávit primário consolidado de fevereiro foi de R$ 2,1 bilhões, melhor que o esperado pelo mercado (-R$0,4 bilhão), mas inferior à média do período em anos anteriores (R$ 5,1 bilhões na média de 2009-2013). Em 12 meses, o superávit primário consolidado ficou em 1,8% do PIB. É bom lembrar, entretanto, que no final deste ano o efeito positivo das receitas extraordinárias do Refis e da concessão do campo de Libra (que juntos equivalem a 0,7% do PIB) sairão da conta em dezembro de 2014, o que tende a reduzir o primário. Estimamos superávit primário de 1,5% do PIB para 2014.

Por fim, no final de março a agência de classificação de risco Standard & Poor's rebaixou a nota de crédito soberano do Brasil de "BBB" para "BBB-", com perspectiva “estável”, a anterior era “negativa”. Segundo a S&P, piora na política fiscal e o menor crescimento econômico justificaram o movimento. Apesar do rebaixamento da nota, o país se mantém como ‘grau de investimento’.

No cenário internacional, os países desenvolvidos continuaram sinalizando recuperação do crescimento econômico entre fevereiro e março. Enquanto isso, na China os dados econômicos de fevereiro foram fracos, e sugerem desaceleração maior da economia.

Nos Estados Unidos, os indicadores econômicos reforçaram percepção de que a fraqueza dos dados no início do ano decorreu das fortes nevascas. As estatísticas de mercado de trabalho e demais indicadores de atividade econômica apontam para recuperação em fevereiro. Apesar disso, a fraqueza nos dados neste início de ano levou os analistas a reduzirem suas projeções para o crescimento do PIB no 1T14. O risco visto pelo mercado até então era de crescimento mais forte do PIB para 2014 (3,0%), que acabou sendo ajustado ligeiramente (atualmente em 2,7%). Nossa projeção para o PIB americano fica mantida em 2,8% para 2014 e 3,1% para 2015. A inflação segue baixa, sem indícios de aceleração. Esperamos que o banco central norte-americano (Federal Reserve) dê prosseguimento ao programa de retirada de liquidez da economia ao ritmo de US$ 10 bilhões/mensais.

Na China, os sinais parecem ser de menor vigor no ritmo de expansão da economia. Os dados econômicos de fevereiro foram fracos, mesmo excluindo os efeitos do feriado do Ano Novo Lunar. A força deflacionária dos preços das commodities deve manter a inflação em nível baixo, abrindo algum espaço para estímulo monetário. Diante das evidências de menor vigor da economia chinesa, o mercado começou a revisar suas projeções para o crescimento da economia (atualmente em 7,4%). Mantemos projeção de PIB chinês de 7,0% em 2014 e 6,8% para 2015.

Na Europa, a economia segue lento processo de recuperação. Os indicadores coincidentes (PMI) das grandes economias sugerem melhora na margem. O mercado segue projetando PIB da ordem de 1% para 2014 e 1,4% para 2015. A inflação segue baixa, mas os indícios de deflação reduziram-se na margem. No que se refere à politica monetária, o Banco Central Europeu (BCE) optou por não anunciar relaxamento monetário adicional na reunião de março. Segundo o presidente do BCE, Mario Draghi, as expectativas de inflação seguem “firmemente ancoradas” e a instituição não antevê preocupação com a dinâmica da atividade econômica. Ainda assim, não descartamos estímulo monetário adicional.