Análises

Cenário Econômico - Fevereiro 2015

Cristiane Alkmin J. Schmidt

Economista da Itaú Asset Management

Resumo da análise:

O ano de 2014 foi difícil e janeiro de 2015 teve anúncios relevantes

Versão Texto Versão Podcast

Cenário Econômico - Fevereiro 2015

Cristiane Alkmin J. Schmidt

Economista da Itaú Asset Management



Brasil

De fato, o ano de 2014 foi difícil.  Como mostram alguns dados publicados em janeiro: a criação de empregos foi a menor desde 1999 (se em 2010 foram gerados mais de dois milhões de empregos, em 2014, foram formados apenas 150 mil); a inflação alcançou quase o topo da banda (6,4% a.a.); o déficit na balança comercial (- US$ 4 bilhões) foi o pior desde 2000 e o déficit em transações correntes (-4,17% do PIB), o menor desde 2001; a confiança dos consumidores alcançou o valor mais baixo da série iniciada em setembro de 2005 (pior até que em 2008); as expectativas de inflação de longo prazo (5,5%) permaneceram acima da meta de 4,5%; e a dívida bruta alcançou 63% do PIB (em 2013 era de 57%). O cenário requeria mudanças.

O mês de janeiro, em particular, foi de anúncios relevantes. O dia 1º de janeiro de 2015 marcou o início do segundo mandato da Presidente Dilma Rousseff e uma nova equipe econômica tomou posse. Esta equipe, por sua vez, já mostrou que 2015 será um ano de ajustes necessários, tendo já anunciado politicas econômicas contracionistas ao longo do último mês. O objetivo é claro: gerar poupança pública, realinhar preços e trazer de volta a confiança dos agentes.

O cenário atual do Brasil diz respeito a problemas estruturais internos, relacionados à oferta da economia, não à demanda. Além disso, os preços precisam ser realinhados para voltarem a refletir a escassez relativa de produtos e de fatores. Esta tem sido a mensagem recorrente nos discursos de membros do Ministério da Fazenda e do Banco Central do Brasil (BCB), mostrando harmonia entre as instituições. Desta forma, o BCB elevou os juros para 12,25% a.a. em 21 de janeiro (e deve elevar novamente para 12,50% em 4 de março) e a Fazenda vem anunciando ajustes fiscais da ordem de mais de 85% da meta estabelecida do superávit primário em 2015 (R$ 66 bilhões). Se desconsiderarmos os tópicos que precisarão de aprovação do congresso ou negociação ministerial, a poupança governamental seria de R$ 30 bilhões (45% da meta). Ainda que o valor seja insuficiente, a sinalização é boa, pois ordenar a política macroeconômica é uma condição necessária para a elevação da confiança dos agentes e, por conseguinte, dos investimentos.

Os agentes têm recebido as notícias com cautela, pois os ajustes irão afetar muitos indicadores. Porém, são imprescindíveis para que a economia brasileira colha benefícios no futuro.

Internacional

As assimetrias de políticas monetárias ao redor do mundo seguem ocorrendo, assim como o baixo preço do petróleo e a valorização do dólar. Apesar dos desafios para este ano não serem poucos, a previsão é de crescimento mundial maior em 2015 (3,8%, segundo o Fundo Monetário Internacional - FMI), ante 2014 (3,3%).

A economia dos EUA segue pujante. Com criação de mais de 240 mil empregos ao mês de média nos últimos 12 meses, taxa de desemprego em 5,6% (abaixo da meta do Banco Central norte-americano (FED) de 6%) e crédito crescente; o FMI e o Banco Mundial preveem crescimento acima de 3,1% a.a. para 2015. Ainda assim, o FED, que já finalizou o programa de expansão monetária em outubro de 2014 (chamado de QE3), não parece assertivo se aumentará a taxa de juros no primeiro semestre de 2015, podendo elevá-la no segundo semestre. Afinal, com dólar mais valorizado, suas empresas se tornam menos competitivas. Além disso, com a desaceleração da economia chinesa e o baixo crescimento na Zona do Euro e no Japão, a decisão se torna mais complexa.

A Zona do Euro, por sua vez, segue com seus problemas estruturais: taxa de desemprego elevada e persistente (11,5%); falta de unificação de regras no mercado de trabalho, fiscais e bancária; e políticas setoriais em desarmonia (telefonia, por exemplo). Além disso, há os desafios conjunturais, como o baixo preço do petróleo. Ainda que, por um lado, este fato eleve a renda dos consumidores fomentando a economia, por outro, força os preços para baixo. De fato, a temida deflação esperada por Mario Draghi (presidente do Banco Central Europeu, BCE) ocorreu em dezembro, quando a inflação foi de -0,2% a.a. Foi anunciada, por isso, uma expansão monetária de € 1,14 trilhão, o que equivale a € 60 bilhões ao mês entre março de 2015 e setembro de 2016.

Outra fonte de incerteza na região iniciou-se em 25 de janeiro, quando o partido de esquerda Syriza ganhou as eleições, fazendo de Alexis Tsipras o primeiro-ministro na Grécia. Como esse partido conseguiu 149 assentos no Parlamento de Atenas (dois a menos para não precisar fazer uma coalizão), o Syriza teve que se juntar a outro partido, no caso, o Gregos Independentes, partido de direita. Apesar de pensamentos divergentes em geral, ambos são a favor de uma política de austeridade menos rigorosa, acordada no passado com a Troika (BCE, FMI e Comissão Europeia). O risco do afrouxamento das condições para a Grécia, no entanto, seria a mensagem ruim para os partidos simpatizantes desta amenização da Zona do Euro que, se ganhassem e exigissem o mesmo, no limite, poderiam desencadear na dissolução do Grupo dos 19 países.

A China, por fim, segue desacelerando, ainda que mais lentamente do que poderia estar ocorrendo, devido aos diversos estímulos monetários que seguem sendo dados pelo Banco Popular do Povo. Em 2014 a taxa de crescimento foi de 7,4% e, em 2015, esta deve ser da ordem de 7%. O mercado imobiliário segue desacelerando, assim como os investimentos em capital fixo. Mesmo assim, vale lembrar, a China continua sendo um país que vem melhorando o bem estar do chinês, além de ser o segundo maior país do mundo, em termos de PIB.

De um modo geral, o mundo deve crescer mais em 2015, apesar dos percalços internacionais que afetam a todos, e das idiossincrasias de cada país/região. Este maior crescimento é bom para os países emergentes, em particular, para o Brasil, por derivar em maior fluxo de capitais e produtos entre os países.

Disclaimer

O Cenário Econômico Mensal é uma publicação da Itaú Asset Management. A Itaú Asset Management é o segmento do Itaú Unibanco especializado em gestão de recursos de clientes. As informações contidas nesta publicação foram produzidas dentro das condições atuais de mercado e da conjuntura e refletem uma interpretação do Itaú Unibanco, podendo ser alteradas a qualquer momento sem aviso prévio. Esta publicação possui caráter meramente informativo e não reflete oferta ou recomendação de investimento de nenhum produto específico. Para análise de produtos específicos oferecidos pelo Itaú Unibanco, consulte seu gerente para maior detalhamento e informações completas acerca de suas peculiaridades e riscos. O Itaú Unibanco não se responsabiliza por decisões de investimento tomadas com base nos dados aqui divulgados.