Análises

Cenário Econômico - Julho 2015

Cristiane Alkmin J. Schmidt

Economista da Itaú Asset Management

Resumo da análise:

EUA: dados indicam que as bases para um aumento do consumo e da atividade estão cada vez mais sólidas

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Cenário Econômico - Julho 2015

Cristiane Alkmin J. Schmidt

Economista da Itaú Asset Management



Começando por Estados Unidos, os dados divulgados ao longo do primeiro semestre indicam que as bases para um aumento do consumo e da atividade estão cada vez mais sólidas. Os indicadores de confiança seguem em níveis historicamente altos, a taxa de desemprego esta baixa e as vendas no varejo tem apresentado melhora. Logo, a despeito da decepção com a produção industrial em maio, os fundamentos indicam que o consumo das famílias impulsionará a atividade americana.

Sobre a política monetária, a presidente do Banco Central americano, o Federal Reserve, reiterou que mais importante do que o momento da primeira alta, que deverá ocorrer ainda este ano, será o ritmo dos movimentos seguintes. Tendo em vista que projetamos um crescimento da atividade mais forte do que as estimativas do Fed, mantemos nossa expectativa para a primeira alta em setembro, mas reconhecemos o risco de que o movimento ocorra somente em dezembro.

Na China, ao longo do mês o governo central divulgou novas medidas, como novos cortes na taxa de juros e dos recolhimentos compulsórios, para estimular o crescimento. Indicadores mostram que parte do efeito pode já estar surgindo na economia, com os dados de produção industrial e de vendas no varejo acelerando marginalmente em maio. Por outro lado, alguns dados decepcionaram, como a balança comercial, que registrou queda nas exportações e nas importações - o que pode indicar que a demanda doméstica ainda esta fraca. Levando tais fatores em conta, esperamos que o governo mantenha a postura vigente, atuando conforme necessário para garantir o cumprimento das metas oficiais de crescimento.

Na Zona do Euro, as atenções se centraram na situação grega e em seu impacto tanto para a União Européia. Na última sexta-feira de junho, o primeiro ministro grego, Alexis Tsipras, anunciou a realização de um referendo no primeiro domingo de junho, cujo tema foi a aprovação de um programa proposto pelos credores do país. O movimento unilateral surpreendeu o resto da Europa e o mercado, e com a deterioração da situação dos bancos se fez necessária a imposição de um feriado bancário e do controle de capitais. O Syriza (partido do primeiro ministro) se posicionou publicamente contra o acordo, defendendo o “não” e afirmando que isso não significa abandonar o euro. Cerca de 61% da população seguiu os apelos do primeiro ministro e votou contra o acordo, de forma que aumentaram substancialmente os riscos de saída do país da Zona do Euro, com forte instabilidade política e forte impacto na economia local.

Apesar da divulgação de dados ao longo do mês ter sido eclipsada pelas negociações gregas, cabe ressaltar que a deterioração das expectativas parece ter ficado razoavelmente contida ao país, com indicadores de confiança apresentando melhora ou leve deterioração. A contaminação foi mais clara para os títulos soberanos de países como Portugal, Itália e Espanha, e é possível que os ativos registrem novos eventos de volatilidade no próximo mês. Com isso, encerramos o panorama global, e vamos falar sobre a economia local.

Ao longo do mês de junho nos deparamos com indicadores que corroboram o quadro de recessão da economia brasileira, bem como discussões importantes sobre as políticas monetária e fiscal.

Levando em consideração o ambiente de baixa confiança entre empresários e consumidores, deterioração acentuada da demanda e aumento significativo dos estoques, projetamos contração do PIB em 2015 de -1,8%, e leve retração de -0,1% em 2016.

A contração da atividade elevará a ociosidade no setor produtivo e gerará um aumento da taxa de desemprego, que deverá encerrar o ano em cerca de 7,5%. No entanto, a pressão desinflacionária da economia só se fará sentir a partir do ano que vem; no curto prazo, não haverá alívio na dinâmica de preços. O IPCA deve fechar o ano de 2015 em 9,4%, desacelerando em 2016 para 5,3% - acima do centro da meta de 4,5%, porém dentro das bandas de tolerância.

A consolidação fiscal tem se revelado desafiadora e projetamos que o superávit primário fiscal será de 0,7% do PIB este ano, e de 1,0% em 2016 - expectativas aquém das metas definidas pelo Ministro da Fazenda, que se comprometeu publicamente com um superávit de 1,1% do PIB em 2015 e de 2,0% em 2016. Todavia, acreditamos que o governo revisará suas metas ao longo do segundo semestre, adequando-as a um cenário de menor arrecadação.

O Conselho Monetário Nacional (CMN) definiu que a meta de inflação permanecerá em 4,5% para 2017, todavia reduziu o intervalo de tolerância (banda) de 2,0% para 1,5%, na primeira alteração da mesma desde 2004. Em termos práticos, o movimento indica que a autoridade monetária terá menos margem para acomodar choques de preços – sejam estes de natureza inflacionária ou deflacionária, pois a banda é simétrica em relação ao centro da meta. Além disso, o Conselho anunciou o aumento da taxa de juros de longo prazo (TJLP) de 6,0% para 6,5%, a terceira alta consecutiva e um movimento esperado tendo em vista o ciclo de aperto empreendido pelo Comitê de Política Monetária (COPOM).

Em relação à condução da política monetária, avaliamos que o comportamento recente da inflação e os esforços para redução das expectativas de inflação de médio prazo farão o Banco Central do Brasil (BCB) estender o processo de alta de juros até o terceiro trimestre. Em seu Relatório de Inflação o BCB reforçou a linguagem utilizada recentemente, destacando a importância de se manter vigilante, com perseverança e determinação para minimizar a contaminação das expectativas futuras de inflação. Portanto, esperamos elevação da taxa de juros para 14,5%, com aumentos de 50 e 25 (bps) nas próximas reuniões. Passado o pior momento do ajuste, a convergência da inflação nos horizontes mais longos permitirá um ciclo agressivo de corte de juros, e a taxa de juros deverá encerrar 2016 em 11,0%.

Logo, é possível dizer que os dados disponíveis ratificam nossas expectativas de que teremos dois anos difíceis para a economia brasileira. Contudo, os ajustes em curso são necessários e contribuirão para uma melhora da economia de 2017 em diante.

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O Cenário Econômico Mensal é uma publicação da Itaú Asset Management. A Itaú Asset Management é o segmento do Itaú Unibanco especializado em gestão de recursos de clientes. As informações contidas nesta publicação foram produzidas dentro das condições atuais de mercado e da conjuntura e refletem uma interpretação do Itaú Unibanco, podendo ser alteradas a qualquer momento sem aviso prévio. Esta publicação possui caráter meramente informativo e não reflete oferta ou recomendação de investimento de nenhum produto específico. Para análise de produtos específicos oferecidos pelo Itaú Unibanco, consulte seu gerente para maior detalhamento e informações completas acerca de suas peculiaridades e riscos. O Itaú Unibanco não se responsabiliza por decisões de investimento tomadas com base nos dados aqui divulgados.