Análises

Cenário Econômico - Julho 2014

Caroline Camargo

Economista da Itaú Asset Management

Resumo da análise:

A economia brasileira continua emitindo sinais de fraqueza.

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Cenário Econômico - Julho 2014

Caroline Camargo

Economista da Itaú Asset Management



A economia brasileira continua emitindo sinais de fraqueza. Os dados mensais de atividade e confiança sugerem que a tendência de desaceleração mostrada pelo PIB do 1T14 se intensificou no 2T14, com reflexos no ritmo de contratações, em especial da indústria. Esta piora ainda não se reflete em alta na taxa de desemprego em decorrência da queda na população economicamente ativa. Entretanto, acreditamos que gradualmente o mercado de trabalho sentirá os efeitos da perda de momento na economia. Apesar da percepção de aumento da ociosidade na economia, a inflação corrente e expectativas seguem persistentemente acima de 6%.

A perspectiva para os investimentos também é ruim, pois os índices de confiança, tanto da indústria e serviços quanto do consumidor, seguem em forte queda. Projetamos estabilidade do PIB no 2T14, mas não descartamos um resultado ligeiramente negativo já que os riscos seguem sendo de uma atividade econômica ainda mais fraca no 2T14. Temos perspectiva de modesto avanço do PIB no médio prazo: projetamos +1% para 2014 e +1,5% para 2015 (a projeção anterior deste caso era de 2%).

Até o momento, esta desaceleração da atividade não provocou aumento do desemprego. A taxa calculada pelo IBGE segue nas mínimas históricas, mas uma análise mais detalhada dos dados não permite alento em relação ao mercado de trabalho. Pelo contrário: os dados de emprego formal do CAGED de maio confirmam desempenho muito baixo pelo terceiro mês consecutivo (-5 mil vagas, com ajuste sazonal), compatível com um aumento da taxa de desemprego nos próximos meses. Outro indicador que aponta para tendência de desaceleração do mercado de trabalho é o de salário real, que tem mostrado estabilidade nos últimos meses. Pelos nossos cálculos, um avanço do PIB da ordem de 2% anual seria capaz de gerar estabilização do desemprego. Contudo, dado o fraco crescimento econômico esperado à frente, esperamos pequena elevação da taxa de desemprego nos próximos trimestres.

Apesar da fraqueza da atividade, a inflação segue persistentemente alta. O Banco Central divulgou no final de junho o Relatório de Inflação do 2T14, com projeções mais elevadas para o IPCA de 2014 e 2015. Apesar da piora nas projeções de inflação e do aumento do risco de se ultrapassar o teto da meta de inflação em 2014 e 2015, o BC entende que o balanço de riscos para a inflação melhorou, o que levaria a autoridade monetária a manter a taxa Selic estável em 11% ao ano por um longo período de tempo. Porém, avaliamos que novos aumentos da taxa de juros serão necessários para garantir a convergência da inflação para a meta. A taxa de juro real apenas se aproximou do nível neutro, o que é insuficiente para garantir a convergência da inflação para a meta. Por isso, nosso cenário contempla mais altas de juros em horizonte de médio prazo. Nossas projeções para o IPCA em 2014 e 2015 estão mantidas em respectivamente 6,6% e 6,4%.

No cenário internacional, junho foi um mês de novos sinais de aceleração do PMI global, com um conjunto maior de países mostrando recuperação, tanto emergentes quanto desenvolvidos. Também foi observada alguma alta da inflação global, apesar de julgarmos que os níveis de ociosidade nas principais economias globais garantam que a inflação mundial seguirá baixa.

Na China, os índices de inflação de maio vieram mais pressionados, com a inflação no atacado menos negativa e os índices de inflação ao consumidor acima de 2%. Os dados de atividade também apontaram para crescimento econômico mais firme em maio, compensando a fraqueza ainda presente no setor imobiliário.

Na Europa, o banco central europeu (BCE) confirmou a sinalização apontada por Mario Draghi no mês anterior e cortou as taxas de juros, além de iniciar nova rodada de estímulos quantitativos. No que tange à atividade econômica, seguem os sinais de surpresa positiva, em especial nos países periféricos. Já em relação aos preços, ainda não há sinais de alta e segue o risco de que a inflação permaneça abaixo do desejado.

Nos Estados Unidos, a segunda revisão do PIB do 1T14 teve nova surpresa negativa, apontando para -2,9% ToT anualizado de -1,0% na primeira revisão. O número foi mais fraco que o esperado pelo mercado (-1,8%), com a maior parte da revisão concentrada no componente de consumo. O PIB fraco do primeiro trimestre não muda a avaliação de que a economia americana manterá ritmo de crescimento de cerca de 3% nos próximos trimestres. Contudo, a fraqueza do 1T14, muito ligada às condições climáticas adversas, implicará em redução da taxa anual de crescimento para 2014. Com isso, nossa projeção para o PIB americano em 2014 recuou de 2,3% para 1,9%. Para 2015 mantemos estimativa de 3,1% de expansão da economia. A recuperação esperada da economia a partir do 2T14 deverá começar a gradualmente gerar pressões inflacionárias, levando a inflação a convergir para 2% ao ano de forma mais consistente.