Análises

Cenário Econômico - Setembro 2014

Cristiane Schmidt

Economista da Itaú Asset Management

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Cenário Econômico - Setembro 2014

Cristiane Schmidt

Economista da Itaú Asset Management



O Brasil apresentou PIB com variação negativa no 2T14, conforme dados divulgados pelo IBGE em Agosto. No 1T14, esse indicador foi de -0,1%, trimestre contra trimestre imediatamente anterior, e no 2T14 foi de -0,6%. A inflação, medida pelo IPCA, segue por sua vez em patamar elevado. Em julho, foi baixa (0,01% no mês), mas está em 6,51% nos últimos doze meses. Além disso, a média dos núcleos do IPCA está em 6% nos últimos doze meses e o índice de difusão em 59%, ambos elevados. A Itaú Asset Management (IAM) estima para 2014 PIB de 0% e inflação de 6,3%. Além disso, a taxa Selic deve permanecer em 11% a.a..

O cenário de uma economia mais desaquecida pode ser observado por outros indicadores. Os investimentos, por exemplo, estão em declínio há, pelo menos, quatro trimestres consecutivos, apresentando queda de 5,3% no 2T14. As confianças do consumidor e a dos segmentos da Indústria e Serviço também seguem decrescentes. Em agosto, por exemplo, a confiança do consumidor retraiu 4,3%. Além disso, o nível de utilização da capacidade instalada, divulgado pela CNI, segue em patamares baixos, comparáveis com o valor de 2008. Em maio, seu nível era de 81%, menor do que o valor de dezembro de 2008, que foi de 78%. A produção e a venda de veículos continuam apresentando arrefecimento ao longo do ano. Segundo a ANFAVEA, a produção de veículos em julho foi de 251 mil unidades (com dados sazonalmente ajustados), apresentando queda de 21% no ano. Na mesma comparação, as vendas foram de 283 mil unidades, representando uma queda de 13% no ano.

O mercado de trabalho, ainda que tenha apresentado uma taxa de desemprego de 4,6% - um número bom quando comparado com padrões globais – vem mostrando fraqueza ao longo do tempo. Ainda que a população desocupada tenha decaído, a população economicamente ativa também decresceu. Segundo os dados divulgados pelo CAGED, a taxa de variação da geração líquida de trabalhadores formais tem sido decrescente desde março de 2014. Em julho o saldo líquido de vagas ficou positivo em 11,8 mil empregos sem ajuste sazonal (negativo em 7 mil com ajuste sazonal). Apesar disso, o rendimento médio real habitual das pessoas ocupadas, divulgado pelo IBGE (Pesquisa Mensal de Emprego) sem o efeito sazonal, segue apresentando variações positivas. Em abril de 2014 (último dado disponível), o valor estava na casa de R$ 2035,30.

No tocante à parte fiscal, os dados seguem frágeis. Em julho, o resultado primário foi de R$ 4,715 bilhões ou 1,22% do PIB, e o nominal atingiu um valor negativo de R$ 29, 8 bilhões, que representa um déficit nominal 2,74% do PIB. A IAM espera que em 2014 haja um superávit primário de 1,2%, o que resulta em uma dívida líquida e bruta do setor público em 36,1% e 58,7%, respectivamente.

No front externo, o panorama não mudou muito. O saldo comercial de julho foi de US$ 1,6 bilhão e o de transações correntes foi de - US$ 6,018 bilhões ou -3,5% do PIB. Já o saldo dos investimentos estrangeiros diretos continua cobrindo parte deste déficit, alcançando o valor de US$ 5,898 bilhões em julho. Com isso, o saldo do balanço de pagamentos neste mês ficou em US$ 5,2 bilhões. A IAM estima que em 2014 haja um saldo comercial de U$ 5 bilhões, em transações correntes de US$ -79,4 bilhões, ou -3,5% do PIB, e um fluxo de investimentos estrangeiros diretos de US$ 62,4 bilhões.

A taxa de câmbio passou o mês com menos volatilidade, alcançado em agosto o nível de R$ 2,236, em parte devido às intervenções no mercado swap cambial. Na segunda semana de agosto, o BCB aumentou a oferta diária de swaps cambiais de US$ 400 milhões para US$ 500 milhões, deixando vencer apenas US$ 1,1 bilhão do total de US$ 10 bilhões que venceram no dia 1 de setembro. O estoque, no entanto, está na casa dos US$ 92 bilhões. A IAM estima que a taxa de câmbio encerre 2014 em R$2,26.

Internacional - EUA como força de crescimento global

A desaceleração da China não tem afetado somente os emergentes produtores de commodities agrícolas e minerais, mas, também, a Europa, que já vem combalida por problemas de natureza da própria União Européia. De fato, a estagnação da Zona do Euro persiste e preocupa, assim como a taxa de desemprego, que segue na casa dos 11,5%. A média das projeções do PIB em 2014 do mercado é de 1% a.a., com uma inflação baixa, ao redor de 0,4%. A boia de salva-vidas para o crescimento global, portanto, deverá vir da economia norte-americana, que segue se recuperando de forma consistente. Consumo, emprego e renda têm apresentado dados satisfatórios e com projeções otimistas. O PIB de 2014 pode alcançar 2% a.a., com inflação ao redor de 2%.

No encontro dos presidentes dos principais bancos centrais do mundo, ocorrido em Jackson Hole, no estado do Wyoming nos EUA, em 22 de agosto de 2014, o discurso de Janet Yellen, presidente do Banco central dos EUA (Fed), era o mais esperado, além da fala do presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi. O tema do encontro foi tratar do “mercado de trabalho” nas diversas economias. Este assunto é um dos mais relevantes para que o Fed decida o momento da elevação da taxa de juros de curto prazo norte-americana (fed funds), que pode começar a ser elevada no primeiro semestre de 2015.

A indústria na Europa, em geral, está respirando com dificuldade. De fato, o Índice de Gerente de Compras (PMI) dos países que usam o Euro, um importante indicador antecedente da atividade econômica, apresentou quatro quedas (em seis meses). França, Itália, Espanha e Irlanda, por exemplo, apresentam atividade modesta, mas não são os únicos. Até o presidente do BCE, Mario Draghi, que em geral tem um discurso de austeridade fiscal, recentemente passou a apoiar mais gastos por parte dos governos dos países da Comunidade Europeia, como forma de estimular as economias da região.