Análises

Cenário Econômico - Dezembro 2014

Cristiane Alkmin J. Schmidt

Economista da Itaú Asset Management

Resumo da análise:

Nova equipe econômica

Versão Texto Versão Podcast

Cenário Econômico - Dezembro 2014

Cristiane Alkmin J. Schmidt

Economista da Itaú Asset Management



Brasil

A notícia mais aguardada do mês de novembro foi a indicação da nova equipe econômica, divulgada no último dia 27. O anúncio foi um alento para o mercado financeiro, que entende que os benefícios sociais só poderão ocorrer se o país crescer e mantiver a inflação sob controle.

Além de Nelson Barbosa ser nomeado para o Ministério do Planejamento, Alexandre Tombini segue no Banco Central do Brasil (BCB). Nelson tem uma visão menos heterodoxa do que os aliados do partido da Presidente, o PT, sendo, portanto, um profissional que deverá estar em linha com seus outros dois colegas, ora mencionados aqui. Tombini, por sua vez, tem formação ortodoxa, mas vinha sofrendo com a perda de credibilidade da autoridade monetária, diante da inflação resiliente acima da meta, desde 2010.

A boa surpresa foi a nomeação do novo ministro da Fazenda, Joaquim Levy. De cunho ortodoxo, com doutorado pela universidade de Chicago (universidade de pensamento liberal), Levy entregou bons resultados, tanto como Secretário do Tesouro no governo Lula (2003-2006), quanto como Secretário do Tesouro no governo do Estado do Rio de Janeiro. Como as suas credenciais são boas, entende-se como críveis as suas metas. Ele, consequentemente, poderá converter a tendência negativa de algumas destas variáveis já no curto prazo. Uma delas, mais qualitativa, será a confiança dos agentes. Outra, mais quantitativa, são os resultados do setor público, em especial o superávit primário, visando controlar a dívida bruta.

No primeiro pronunciamento feito pelo trio, algumas mensagens são relevantes de ser citadas. Duas delas são: o foco na transparência das contas públicas e a volta da obtenção de superávits primários mais robustos. Para 2015, Levy se comprometeu com uma meta de 1,2% do PIB (mais do que informalmente os economistas estavam prevendo, ao redor de 1%) e para 2016 e 2017, com um valor não menor do que 2% do PIB. Este percentual, segundo seus cálculos, é suficiente para estabilizar a dinâmica da dívida bruta.

Interessante mencionar que ele não fez referência à dívida líquida, uma vez que esta desconsidera, entre outras coisas, os empréstimos do BNDES. A interpretação dada a este fato, assim, é a sua percepção sobre a importância do primeiro conceito, comparável internacionalmente e observado pelas agências de rating. Além da fala de Levy, Tombini e Barbosa também se pronunciaram. O primeiro enfatizou que, como Presidente do BCB, trabalhará para convergir a inflação para o centro da meta de 4,5% no final de 2016. Esta é uma boa sinalização, pois este horizonte havia sido retirado dos comunicados da instituição, deixando o prazo indefinido. Como a sociedade não deseja perder seu poder de compra, a credibilidade deve ser revertida, se houver uma efetiva mudança de atitude.

Já Barbosa, seguindo um receituário ortodoxo, afirmou que os logros sociais não podem vir com inflação alta e crescimento baixo. Sua mensagem principal foi mostrar que a visão deste “novo” governo é perseguir objetivos sociais, desde que mantendo crescimento e estabilidade monetária. Se o seu alinhamento com os demais colegas, aqui mencionados, ocorrer de fato, ele poderá ser um bom interlocutor desta visão mais ortodoxa com a outra ala do governo, de cunho mais heterodoxo.

Todos os três membros da nova equipe, assim, entendem que a situação da economia brasileira não está tranquila e pretendem ajudar na reversão desta dinâmica. É uma notícia alentadora. De fato, como as credenciais da equipe, em especial de Levy, são boas, assim como as intenções anunciadas por seus membros, no momento só há espaço para celebrar. Isto, no entanto, não exclui a existência de riscos na execução do novo plano econômico. Estes, porém, são contrabalançados com o desejo do PT em permanecer no governo além de 2018, o que será mais provável quanto melhor estiverem os fundamentos da economia.

Internacional

Os mercados externos reagiram negativamente no início de outubro, após a divulgação de dados fracos da economia alemã e as novas projeções do FMI e do Banco Mundial, menos favoráveis do que as relatadas em seus documentos anteriores. Em nosso entendimento, no entanto, apesar da revisão para baixo no crescimento global em 2014 e 2015, este não deve ser desastroso.

Nos Estados Unidos, os dados seguem positivos, mostrando solidez e consistência na recuperação econômica, a despeito do ritmo mais fraco nas demais regiões do mundo. O PIB deve crescer 2,3% em 2014 e 3,0% em 2015 (Projeção Itaú Asset Management). No terceiro trimestre, o PIB cresceu robustos 3,9%. A confiança do consumidor também tem melhorado desde setembro 2011, ainda que com as oscilações normais de curto prazo. Foi o que aconteceu em novembro, quando esta variável (88,7) veio abaixo do número de novembro (94.1). Apesar desta volatilidade recente, o mercado de trabalho segue melhorando e a taxa de desemprego já se encontra em 5,75%, se aproximando do patamar considerado pelo Federal Reserve (Fed) como o de pleno emprego (entre 5,2% e 5,5%). Esta diminuição do desemprego tem sido motivada, principalmente, pela forte criação de postos de trabalho, cuja média dos últimos seis meses ficou em 235 mil empregos mensais. Por isso, em outubro, o Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) finalizou a última etapa da política de afrouxamento monetário, o QE3. Resta agora saber quando começará a elevação da taxa básica de juros. Como a inflação está abaixo de 2% (outra meta do Fed) e com algum viés de baixa devido à queda do preço do petróleo e ao risco de menor crescimento global, aumentaram as chances do aperto monetário ser postergado para o terceiro trimestre de 2015, em vez do segundo. De qualquer forma, nosso cenário-base ainda contempla o primeiro aperto monetário em junho de 2015.

A Zona do Euro, por outro lado, segue com os mesmos problemas de sempre: desemprego alto (11,5% em setembro), crescimento baixo (menor do que 1%) e risco de deflação (0,4% em out/14 comparado com out/13), segundo dados do Eurostat. O crescimento para 2014 está projetado em 0,7%-0,8% para 2014 e em 1.2%-1,3% para 2015 (Bloomberg e FMI). Por isso, o Bnaco Central Europeu (BCE) iniciou os programas de estímulos monetários. São três: o financiamento de longo prazo para bancos (TLTRO), a compra de títulos lastreados em diversos tipos de ativos (ABS) e a compra de títulos lastreados em fluxo imobiliário (covered bonds). A mensagem que o presidente do BCE tem dado é que será feito “o que for preciso” para dirimir os problemas de curto prazo da economia. Apesar de haver sinais mistos da Alemanha e de se observar fraqueza persistente na França e Itália, seguimos acreditando que a região não entrará em recessão.

A China segue com uma tendência de desaceleração moderada na atividade, com crescimento do PIB de 7,4% em 2014 e de 7,1% em 2015 (FMI). No terceiro trimestre o PIB variou 7,8% (taxa anualizada e dessazonalizada). Apesar do bom crescimento, o investimento tem desacelerado mais rapidamente do que o esperado. Mais preocupante é o setor imobiliário, que segue apresentando forte queda em seus preços. Não por menos, a autoridade monetária chinesa (Banco Popular da China) reduziu a taxa de empréstimo e a de depósito em 0,40 e 0,25 pontos percentual, para 5,6% e 2,75%, respectivamente. A meta do banco é lograr crescimento próximo à sua meta, de 7,5%.

Em resumo, apesar da recente perda de ímpeto da atividade na Europa, Japão e China, seguimos acreditando que deve-se observar um nível de atividade crescente entre 2014 e 2015.

Disclaimer

O Cenário Econômico Mensal é uma publicação da Itaú Asset Management. A Itaú Asset Management é o segmento do Itaú Unibanco especializado em gestão de recursos de clientes. As informações contidas nesta publicação foram produzidas dentro das condições atuais de mercado e da conjuntura e refletem uma interpretação do Itaú Unibanco, podendo ser alteradas a qualquer momento sem aviso prévio. Esta publicação possui caráter meramente informativo e não reflete oferta ou recomendação de investimento de nenhum produto específico. Para análise de produtos específicos oferecidos pelo Itaú Unibanco, consulte seu gerente para maior detalhamento e informações completas acerca de suas peculiaridades e riscos. O Itaú Unibanco não se responsabiliza por decisões de investimento tomadas com base nos dados aqui divulgados.