Análises

Cenário Econômico - Agosto 2015

Mirella Sampaio

Economista da Itaú Asset Management

Resumo da análise:

EUA: dados indicam que as bases para um aumento do consumo e da atividade estão cada vez mais sólidas

Versão Texto Versão Podcast

Cenário Econômico - Agosto 2015

Mirella Sampaio

Economista da Itaú Asset Management



Começando por Estados Unidos, com a proximidade da primeira alta da taxa de juros desde a crise financeira, as atenções tem se voltado para os indicadores associados à dinâmica de preços e ao mercado de trabalho. De acordo com a comunicação recente, o Banco Central Americano iniciará o novo ciclo quando estiver razoavelmente confiante com a inflação, observando continuo progresso no mercado de trabalho – não sendo, portanto, necessário alcançar um determinado nível. Tendo em vista que projetamos um crescimento da atividade mais forte do que as estimativas do Fed, mantemos nossa expectativa para a primeira alta em setembro, mas reconhecemos o risco de que o movimento ocorra somente em dezembro.

Na China, o destaque do mês foi o forte movimento de baixa registrado nas bolsas de valores domésticas, e a resposta do governo central a tal situação. Com a deterioração de diversos indicadores do mercado de ações, o governo iniciou uma ofensiva que perdurou durante julho, com suspensão da negociação de diversos títulos, injeção de liquidez e outras medidas, com algum sucesso – porém sem alcançar uma estabilização ou reversão da tendência. As fortes intervenções no mercado financeiro puseram em dúvida o compromisso do governo com a agenda de liberalização da economia, ocasionando críticas de diversas fontes (incluindo o FMI)

Na Zona do Euro, o foco permaneceu centrado nas negociações entre a Grécia e os credores do país. Ao longo do mês as negociações se intensificaram, e as exigências dos credores envolveram termos mais rigorosos do que as opções apresentadas no primeiro semestre. Com a aprovação de diversas medidas de austeridade no parlamento grego, as negociações avançaram, com foco na criação de um novo programa de ajuda ao país, cujos termos serão definidos ao longo de agosto. Assim como em junho, as incertezas associadas ao evento Grécia parecem ter ficado razoavelmente contidas, com indicadores de confiança apresentando melhora ou leve deterioração.

Passando para Brasil, o ambiente econômico e institucional seguiu apresentando sinais negativos para as perspectivas de curto e médio prazo no país;

Em julho a equipe econômica apresentou as novas metas para o resultado primário do setor público consolidado, com revisões negativas para os anos de 2015, 2016 e 2017. Desta forma, o superávit primário deste ano foi revisto de 1,13% para 0,15% do Produto Interno Bruto (PIB), com metas de 0,10% do PIB para o governo central e 0,05% para os governos regionais (estados e municípios).

Cabe ressaltar que o projeto que será enviado para o Congresso contará com uma cláusula que permite um abatimento da meta em caso de frustração de receitas extraordinárias, podendo o setor público incorrer em déficit de até 0,3% este ano. Além disso, foram estabelecidas em 0,7% e 1,3% as metas para os próximos dois anos (anteriormente 2,0% para ambos os casos), tornando o cenário fiscal menos auspicioso em termos de estabilização da dívida pública em relação ao PIB – importante indicador para a avaliação das perspectivas de longo prazo para o país. Refletindo as informações mais recentes, revisamos nossa projeção para o resultado primário, antevendo um superávit de 0,2% do PIB para 2015, e de 0,7% para 2016.

Cerca de uma semana após a revisão das metas fiscais, a agência de classificação de risco S&P alterou a perspectiva para o rating soberano brasileiro de estável para negativo. Segundo a definição da própria agência, a probabilidade da nota ser rebaixada é de ao menos 33% para o intervalo entre 6 e 24 meses, o que levaria o Brasil a perder o grau de investimento. Com isso, o país integraria o rol de nações cujo investimento é tido como especulativo, incorrendo em maiores custos de captação tanto para o Tesouro Nacional como para as empresas. Para evitar este cenário, serão necessárias melhorias nas perspectivas de crescimento, situação fiscal e da dívida pública.

O ambiente econômico desafiador e as incertezas políticas têm potencializado a queda da confiança dos agentes da economia em geral, a deterioração acentuada da demanda e o acúmulo de estoques. Associado a impulsos contracionistas, notadamente os apertos fiscal e monetário, passamos a projetar  quedas do PIB de 2,3% em 2015 e de 0,5% em 2016 - até então, esperávamos contrações de 1,8% e de 0,3%, respectivamente.

A deterioração da atividade elevará a ociosidade no setor produtivo e aumentará a taxa de desemprego, gerando maior pressão deflacionária na economia a partir do ano que vem. Em 2015, o IPCA deve registrar alta de 9,5%, refletindo o forte aumento dos preços administrados e de alimentos – especialmente in natura, que tem sido impactados por uma combinação de chuvas e frio atípicos para a atual época do ano. A dinâmica de preços deverá apresentar alívio ao longo de 2016, desacelerando para 5,0% - ainda acima do centro da meta de 4,5%, porém dentro das bandas de tolerância.

Em sua reunião de política monetária de julho, o Banco Central do Brasil (BCB) decidiu por unanimidade aumentar a taxa Selic em 50 pontos base (bps) para 14,25% a.a., em linha com o esperado pela Itaú Asset Management (IAM) e pelo mercado. O comunicado oficial indicou que o Diretor de Assuntos Internacionais, Tony Volpon, se absteve de participar da reunião, e apresentou mudanças em relação ao comunicado da reunião de junho, o que interpretamos como um sinal do fim do ciclo de aperto monetário. Por esta razão, a IAM acredita que a taxa de juros deve permanecer no patamar vigente, de 14,25% até o início de 2016.

Logo, é possível dizer que os dados disponíveis ratificam nossas expectativas de que teremos dois anos difíceis para a economia brasileira. Muito obrigada pela atenção e até a próxima.

Disclaimer

O Cenário Econômico Mensal é uma publicação da Itaú Asset Management. A Itaú Asset Management é o segmento do Itaú Unibanco especializado em gestão de recursos de clientes. As informações contidas nesta publicação foram produzidas dentro das condições atuais de mercado e da conjuntura e refletem uma interpretação do Itaú Unibanco, podendo ser alteradas a qualquer momento sem aviso prévio. Esta publicação possui caráter meramente informativo e não reflete oferta ou recomendação de investimento de nenhum produto específico. Para análise de produtos específicos oferecidos pelo Itaú Unibanco, consulte seu gerente para maior detalhamento e informações completas acerca de suas peculiaridades e riscos. O Itaú Unibanco não se responsabiliza por decisões de investimento tomadas com base nos dados aqui divulgados.