Análises

Cenário Econômico - Junho 2015

Cristiane Alkmin J. Schmidt

Economista da Itaú Asset Management

Resumo da análise:

Mercado alternou entre a cautela e o otimismo no mês de maio

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Cenário Econômico - Junho 2015

Cristiane Alkmin J. Schmidt

Economista da Itaú Asset Management



Pela ótica da economia internacional, o mês de maio apresentou desenvolvimentos similares aos vistos anteriormente, com o mercado alternando entre a cautela e o otimismo. Nos Estados Unidos a retração da atividade no primeiro trimestre seguiu em foco, valendo a pena destacar que apesar de parte da decepção se dever a choques temporários – como a greve nos portos da costa oeste e o inverno rigoroso – parte se deveu a choques mais persistentes, como a apreciação do dólar e a queda do preço do petróleo. Essa discussão se fez presente na ata da reunião de política monetária do Banco Central Americano, e os membros do comitê esperam uma melhora gradual da economia nos próximos trimestres. Nós, da Itau Asset Management, acreditamos que ocorrerá de fato uma aceleração da atividade ao longo do ano, e esperamos que o processo de normalização da política monetária ocorra em setembro, com o primeiro aumento da taxa de juros desde a crise de 2008.

Na Zona do Euro os dados econômicos foram ofuscados pelos desenvolvimentos políticos, especialmente àqueles associados à crise grega. Com uma economia expandindo em ritmo moderado, e dados em linha com o esperado, o Banco Central Europeu tem mantido seu compromisso firme com a implantação de sua política monetária acomodatícia, que inclui compra de diversos ativos financeiros e provisão de liquidez para os bancos. As negociações entre o governo grego, o Banco Central Europeu, a Comissão Europeia e o Fundo Monetário Internacional se estenderam por todo o mês sem grandes avanços. No entanto tendo em vista a precária situação fiscal do país e a necessidade de apreciação do acordo por diversos órgãos (tanto nacionais, quanto supranacionais), é esperado que algum tipo de acordo seja finalizado ao longo de junho.

Finalizando o cenário externo, a China segue apresentando desaceleração em relação ao forte ritmo de crescimento visto nos últimos anos. Buscando evitar uma desaceleração brusca, o governo tem anunciado medidas monetárias, fiscais e creditícias com viés expansionista. Um ponto importante é que apesar da valorização de sua moeda, que segue os movimentos do dólar americano, o governo não tem feito intervenções cambiais. Ainda que tal opção torne os produtos chineses relativamente menos competitivos, ao deixar o câmbio flutuar, o governo fortalece sua mensagem de liberalização gradual da economia e aumenta as chances de sua moeda compor a cesta de moedas do Fundo Monetário Internacional - uma sinalização clara do poderio econômico de uma nação já que hoje tal cesta inclui o dólar americano, o yen, o euro e a libra esterlina.

Em suma, é possível dizer que ainda que as perspectivas sejam positivas para o restante do ano, parece pouco provável uma aceleração contundente da atividade externa, o que serve de pano de fundo para começarmos a falar sobre Brasil.

Com a depreciação do real seria razoável supor que tivéssemos um aumento da competitividade dos bens e serviços nacionais, e que esses se traduzissem em maior comércio externo. Todavia, uma vez que os custos de produzir no Brasil são relativamente altos, seria necessário que o câmbio se depreciasse a uma taxa maior do que de outros para que o efeito positivo na balança comercial se materializasse via maiores exportações. Por ora esperamos que a mesma tenha desenvolvimentos positivos graças não ao aumento das exportações, e sim à queda das importações. Uma vez que o setor externo é relativamente pequeno no Brasil, e que seus principais parceiros comerciais crescerão em ritmo moderado, o impulso proveniente deste não será suficiente para neutralizar outros choques negativos que já se fazem presentes na economia doméstica. Como por exemplo, os impulsos negativos fiscal e monetário.

Na busca pelo cumprimento da meta fiscal, que a equipe econômica estipulou em 1,1% do PIB para 2015 e em 2,0% do PIB para 2016, foi divulgado o orçamento para 2015, que incluiu um contingenciamento de 69,9 bilhões em todas áreas, como saúde, educação e investimentos. Em maio foram apreciadas e aprovadas no legislativo matérias importantes para o ajuste, que incluíam temas politicamente sensíveis como o abono salarial e o seguro desemprego. Ao longo das votações as medidas sofreram alterações, que tornaram seus efeitos fiscais menores do que o inicialmente esperado. Matérias importantes, como o Projeto de Lei que trata a desoneração das folhas de pagamentos, ainda serão apreciadas, e o ambiente político segue desafiador para o governo.

Além disso, o Banco Central tem mantido o ciclo de aumento da taxa Selic, tornando os empréstimos e o custo de investir no país mais alto – em um momento em que a confiança dos diferentes setores da economia já se encontram deprimidos. É importante ressaltar que tendo em vista a comunicação recente de seus diretores e a manutenção da linguagem que indica uma maior preocupação com a inflação, o ciclo de alta deve continuar, e a Itaú Asset Management espera que a taxa Selic alcance 14,0%, se mantendo neste patamar até o final do ano. Apesar deste esforço, a dinâmica de preços não deve dar trégua no curto prazo, com o ajuste de preços relativos, o repasse da depreciação cambial e à pressão do setor de serviços mantendo o IPCA persistentemente acima de 8,0% no restante do ano . Levando tais fatores em consideração, projetamos uma inflação de 8,6% para este ano e de 5,3% para o próximo.

O Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre de 2015 apresentou retração de 0,2% na comparação com o quatro trimestre de 2014 com ajuste sazonal, mais tímida do que o recuo de 0,5% que era esperado por nós e pelo mercado. Na comparação com o mesmo período do ano anterior a retração do PIB foi da ordem de 1,6%. A queda da atividade se fez presente em diversos setores da economia, marcada por queda do consumo e do investimento tanto das famílias quanto do governo.

Em virtude deste cenário mais pessimista, revisamos nossa projeção de uma retração de 1,2% da atividade brasileira para 1,5% em 2015, com uma expansão moderada de 0,4% para o próximo ano ao invés da expectativa anterior de 0,5%. A atividade mais fraca tornará a meta fiscal ainda mais desafiadora, de modo que esperamos que a mesma não seja alcançada, com o superavit primário de 2015 da ordem de 0,9% e de 2016 em 1,8%. Todavia, ressaltamos a importância do ajuste do ponto de vista estrutural, sendo essencial que esse esforço seja mantido para que o país mantenha seu g0rau de investimento.

Entramos no último mês do segundo trimestre, portanto com desafios tanto para as principais economias internacionais quanto para o Brasil, no entanto tudo indica que existem mais motivos para ser otimista em relação ao cenário externo do que ao doméstico.

Disclaimer

O Cenário Econômico Mensal é uma publicação da Itaú Asset Management. A Itaú Asset Management é o segmento do Itaú Unibanco especializado em gestão de recursos de clientes. As informações contidas nesta publicação foram produzidas dentro das condições atuais de mercado e da conjuntura e refletem uma interpretação do Itaú Unibanco, podendo ser alteradas a qualquer momento sem aviso prévio. Esta publicação possui caráter meramente informativo e não reflete oferta ou recomendação de investimento de nenhum produto específico. Para análise de produtos específicos oferecidos pelo Itaú Unibanco, consulte seu gerente para maior detalhamento e informações completas acerca de suas peculiaridades e riscos. O Itaú Unibanco não se responsabiliza por decisões de investimento tomadas com base nos dados aqui divulgados.